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domingo, 16 de novembro de 2008

Lembrar o erro para não repetir

Noedson Ney - O Brasil de hoje é fruto do golpe de 1964
Hoje procurei nos grandes sites da internet brasileira e não encontrei quase nenhuma referencia ao dia. Não se falou no rádio ou na televisão sobre o fatídico dia 31 de março de 1964.
44 anos depois, parece que a memória nacional quer esquecer. Mas não deve, com certeza não deve. As gerações que organizaram o golpe quase não mais estão entre nós. As que sofreram sim.
O golpe militar de 1964 impôs não apenas 21 anos de ditadura, mas também o ambiente político e cultural que possibilitou – no período da “redemocratização” – ao neoliberalismo aportar com tudo no território brasileiro, estimulado pelas elites empresariais, saudado pelas classes médias e engolido pelos trabalhadores sem maiores resistências.
Em plena Guerra Fria, com o imperialismo norte-americano jogando pesado contra os blocos socialista e terceiro-mundista, o golpe interrompeu o processo de reformas de base articulado por lideranças trabalhistas com o governo João Goulart. As reformas faziam sentido no bojo do desenvolvimento industrial das décadas de 40 e 50, e representavam a justa cobrança dos trabalhadores no acerto de contas com o capital, especialmente para virar a página do atraso oligárquico.
Com o golpe, a experiência educacional transformadora foi duramente reprimida e todo o sistema passou a ser controlado de cima para baixo, com rígida vigilância. Tanto é que inúmeros professores e projetos educacionais foram banidos. Ao mesmo tempo acelerou-se o processo de privatização do ensino superior. Foram criadas as “fundações sem fins lucrativos” que enriqueceram tanta gente.
As fábricas de diplomas ganharam status de faculdades e universidades. O sistema criado na ditadura permanece intacto. Vigora até hoje, é um dos pilares de formação e sustentação intelectual do neoliberalismo.
O projeto de reforma agrária de Celso Furtado, que o governo João Goulart ensaiava colocar em prática, previa a desapropriação de todas as terras ao longo das rodovias e ferrovias, de forma que se pudessem assentar rapidamente todas as famílias que quisessem trabalhar na terra.
O golpe de 1964 abortou a reforma agrária e até hoje o Brasil não conseguiu resolver a secular questão agrária e nem criar um modelo para o desenvolvimento da agricultura familiar, a produção de alimentos e a proteção ambiental.
Ao contrário, o Brasil agora convive com o latifúndio improdutivo e com o latifúndio do agro negócio – a concentração da terra voltada para a exportação (soja, eucalipto, cana e pecuária), altamente destruidora das reservas florestais, dos recursos hídricos e do meio ambiente.
Nem bem o Brasil saiu da ditadura militar, em 1985, e as elites brasileiras já estavam salivando para privatizar o patrimônio público acumulado nos anos de centralização e de estatização, quando os gestores do regime endividaram o País e o povo brasileiro com inúmeros projetos faraônicos.
A ditadura acelerou a destruição da Amazônia com a rodovia Transamazônica e os projetos fracassados de colonização; a ditadura acelerou a destruição dos recursos hídricos com os projetos de grandes hidrelétricas; a ditadura acelerou a destruição cultural do Brasil com os seus projetos autoritários de educação e comunicações.
O apoio da ditadura à TV Globo e às demais redes de televisão foi decisivo para “formar” gerações alienadas com a cabeça no consumo e no circo. O sistema de controle da informação e da cultura montado pela ditadura continua intacto até hoje – sob o domínio de alguns grupos empresariais e coronéis eletrônicos espalhados no território nacional.
E assim vamos vivendo. Neste contexto quem viu de perto os horrores da ditadura, tanto dentro como fora do golpe, sabe que não deve esquecer. Que não podemos cometer o mesmo erro. Os gritos, as mortes e o sangue derramado pelos executados pelas forças do AI-5 e seguintes, ainda ecoam alto nos ouvidos de quem à época viveu e sofreu os ais e ais e ranger de dentes.
É urgente e necessário que intensifiquemos a nossa vigilância e fiscalização sobre os menos avisados para que não atraiam os olhares e desejos da volta aos velhos tempos. E olhe que ainda sobrevivem por ai velhas cabeças brancas que desejam ardentemente uma recaída.
Exemplos não faltam. O mais recente veio com a ameaça de setores arcaicos do governo Lula em amordaçar a imprensa e o Ministério Público. Alerta então. Já que o esquecimento é uma porta aberta para aventureiros.
Se você meu caro internauta perguntar ao seu filho sobre este fatídico dia 31 de março, será que ele saberá explicar? É bom que ele saiba o que é. Um golpe que dizimou centenas de vidas de jovens brasileiros e marcou o país até hoje, trouxe mais pobreza, sofrimento e dor. A pobreza aumentou assustadoramente e a violência, sem comentários.
Mas não se deixe enganar. Por trás do suposto esquecimento pode estar a articulação silenciosa das elites para um novo tipo de AI-5, com direito a voto popular em urna eletrônica e tudo.Pesquise um pouco sobre a história real do golpe de 64 e você vai entender. Assim como agora, tudo começou com o silêncio. Até o dia 31 de março de 1964, 11h00 da manhã. Quem sabe o risco não está bem aí na nossa cara com o atual governo liberal instalado em Brasília e na Bahia? O resto você já sabe.